Por que a Loro Piana está investindo na própria cadeia produtiva?
A Loro Piana inaugurou, em Ghemme, no Piemonte italiano, um novo centro de excelência dedicado integralmente à produção de malharia fully fashioned. O projeto representa um movimento de maior integração vertical da cadeia produtiva da Maison e reúne, em um mesmo complexo, diferentes etapas que vão do processamento dos fios à peça finalizada. A unidade está inserida na tradição têxtil da região e deverá chegar a cerca de 300 profissionais quando estiver em plena capacidade. Mais do que uma nova instalação industrial, o empreendimento evidencia uma estratégia relevante para o mercado de luxo: aproximar a marca dos processos, das pessoas e dos conhecimentos que tornam seus produtos reconhecíveis e diferenciados.

A relação com o Direito da Moda está justamente aí. Quando uma Maison investe na própria estrutura produtiva, ela não está apenas ampliando sua capacidade de fabricação. Está também assumindo maior controle sobre informações, processos, relações contratuais, propriedade intelectual, qualificação profissional, fornecedores e padrões de qualidade. No universo do luxo, em que o savoir-faire pode representar parte importante do valor de uma marca, essa estruturação possui uma dimensão jurídica que merece atenção.
Verticalização: quando a marca passa a controlar mais etapas da produção
A verticalização ocorre quando uma empresa passa a internalizar etapas que anteriormente poderiam ser realizadas por terceiros. No caso da Loro Piana, o novo centro concentra diferentes fases da produção de malharia, permitindo maior proximidade entre desenvolvimento, programação, tricotagem, confecção, acabamento, reparos e etapas finais. O próprio grupo LVMH mantém atualmente posições profissionais em Ghemme relacionadas à gestão de matérias-primas e ao desenvolvimento de modelagem e produção de malharia, evidenciando a amplitude da estrutura produtiva instalada na região.
Do ponto de vista empresarial, essa estratégia pode proporcionar maior controle sobre qualidade, prazos, processos e padrões técnicos. Do ponto de vista jurídico, entretanto, ela também significa que a empresa passa a administrar diretamente um conjunto ainda mais amplo de relações e responsabilidades. Contratos de fornecimento, relações trabalhistas, propriedade intelectual, confidencialidade, tecnologia, proteção de informações e padrões de produção passam a fazer parte de uma estrutura que precisa ser cuidadosamente organizada.
O savoir-faire como ativo estratégico
Um dos conceitos mais importantes para compreender o caso é o de savoir-faire, expressão francesa utilizada para designar um conjunto de conhecimentos, técnicas e habilidades desenvolvidos por uma empresa ou por seus profissionais.
Na moda e no luxo, o savoir-faire pode envolver desde técnicas artesanais específicas até métodos de construção, acabamento, tratamento de determinados materiais, desenvolvimento de produtos e processos internos aperfeiçoados ao longo dos anos. Nem todo conhecimento desse tipo será necessariamente protegido por uma patente ou por um registro de propriedade intelectual.
Ainda assim, isso não significa que ele não possua valor jurídico ou empresarial. Informações técnicas, processos internos e conhecimentos estratégicos podem, dependendo de suas características, ser tratados como informações confidenciais ou segredos de negócio, exigindo medidas para restringir seu acesso, documentar responsabilidades e evitar utilização ou divulgação indevida. É nesse ponto que o Fashion Law se aproxima também do direito empresarial e da proteção de ativos intangíveis.
Como proteger conhecimentos que não aparecem na etiqueta?
Uma peça de luxo pode parecer simples para o consumidor, mas esconder uma enorme quantidade de conhecimento técnico. A forma como determinado fio é trabalhado, a maneira como uma peça é construída, os parâmetros utilizados em uma máquina, determinadas técnicas de acabamento ou procedimentos desenvolvidos internamente podem ser resultado de anos de experiência e aperfeiçoamento.
Essas informações podem representar uma vantagem competitiva. Por isso, a proteção jurídica não precisa estar necessariamente concentrada no produto final. Ela também pode envolver os processos utilizados para chegar até ele.
Contratos de confidencialidade, cláusulas específicas em contratos de trabalho e prestação de serviços, políticas internas de acesso a informações e mecanismos de controle sobre documentos e sistemas são exemplos de instrumentos que podem contribuir para essa proteção. A estrutura jurídica precisa acompanhar o valor econômico do conhecimento produzido dentro da empresa.
A formação de profissionais também tem dimensão jurídica
Outro aspecto interessante do projeto da Loro Piana é o investimento na formação de profissionais especializados. A antiga casa do caseiro do complexo abriga a Accademia dei Mestieri, vinculada à estratégia de preservação e transmissão de conhecimentos artesanais da Maison.
A Loro Piana também mantém o Knit Design Award, iniciativa voltada a jovens designers internacionais interessados em explorar a malharia e as fibras utilizadas pela marca. Em 2026, o programa chegou à sua décima edição e passou a oferecer aos vencedores bolsa de estudos e oportunidade profissional junto à Maison.
A formação de novos talentos é fundamental para a continuidade de técnicas especializadas, mas também pode gerar questões jurídicas relevantes. Quando estudantes, designers, artesãos ou profissionais participam de projetos dentro de uma empresa, é importante definir contratualmente questões relacionadas às criações desenvolvidas, à utilização de imagens, à confidencialidade, aos materiais produzidos e aos direitos de propriedade intelectual.
Uma colaboração com uma escola de moda, por exemplo, pode exigir regras claras sobre titularidade e exploração comercial de projetos desenvolvidos pelos participantes. Da mesma maneira, concursos e programas de formação que envolvam criação de produtos precisam estabelecer previamente as condições de participação e utilização das propostas apresentadas.
Propriedade intelectual e criação de produtos
A indústria da moda produz continuamente ativos que podem receber diferentes formas de proteção jurídica. Uma nova modelagem, uma estampa, um desenho, uma identidade visual, uma campanha, uma fotografia ou um elemento distintivo podem envolver direitos de propriedade intelectual distintos.
No caso da malharia, a própria construção de uma peça pode envolver uma combinação complexa de criação estética e conhecimento técnico. Isso exige que as empresas avaliem, caso a caso, quais elementos possuem proteção jurídica, quem é seu titular e de que maneira podem ser explorados.
Em uma estrutura verticalizada, esse controle pode ser ainda mais relevante porque diferentes etapas do desenvolvimento passam a estar dentro da própria organização. O desafio deixa de ser apenas impedir que terceiros copiem um produto. Passa também a ser organizar internamente quem pode acessar, reproduzir, modificar ou explorar cada criação e cada informação estratégica.
Contratos como ferramenta de proteção do savoir-faire
Em uma cadeia produtiva tradicionalmente fragmentada, diferentes fornecedores podem ter acesso a partes distintas do processo de desenvolvimento de um produto. Isso pode aumentar a necessidade de contratos que estabeleçam responsabilidades e limites claros. Cláusulas de confidencialidade, propriedade intelectual, não utilização indevida de informações, segurança de dados e documentação de processos podem ser importantes para reduzir riscos.
A questão também se aplica a fornecedores externos que tenham acesso a materiais, fichas técnicas, protótipos, desenhos ou especificações desenvolvidas pela marca. A proteção jurídica do savoir-faire, portanto, não depende apenas de um registro. Ela pode exigir uma combinação entre contratos, governança interna, controle de acesso e organização documental. É justamente essa abordagem que permite transformar o jurídico em uma ferramenta preventiva.
A verticalização e a rastreabilidade da cadeia
Outro ponto relevante está na capacidade de uma empresa de conhecer e controlar sua própria cadeia produtiva. Quanto maior o controle sobre as etapas de produção, maior pode ser a capacidade de acompanhar a origem das matérias-primas, os processos empregados e os padrões adotados na fabricação.
No contexto atual da indústria da moda, essa questão ganha importância diante do crescimento das exigências de transparência e rastreabilidade. Informações sobre materiais, origem, processos produtivos e características dos produtos estão cada vez mais presentes nas discussões regulatórias e comerciais do setor.
Para marcas que atuam internacionalmente, especialmente em mercados com exigências crescentes de transparência, conhecer a própria cadeia pode ser uma questão de competitividade, compliance e gestão de risco.
Sustentabilidade também aparece na estrutura produtiva
A nova unidade de Ghemme foi apresentada como um projeto voltado à eficiência e à integração com o ambiente, incorporando soluções relacionadas ao consumo de energia e à utilização de recursos. Embora iniciativas ambientais não sejam, por si só, uma questão exclusivamente jurídica, elas podem gerar consequências importantes para o Fashion Law quando são utilizadas na comunicação da marca.
Uma empresa que divulga determinadas características ambientais de suas instalações, produtos ou processos precisa ter condições de sustentar essas afirmações. Isso significa que documentos, certificações, dados técnicos e informações fornecidas por parceiros podem adquirir relevância jurídica. A comunicação sobre sustentabilidade precisa estar alinhada aos fatos e às evidências disponíveis, especialmente diante do aumento da atenção regulatória sobre alegações ambientais e práticas de greenwashing.
Preservação do patrimônio e identidade da marca
O projeto também apresenta uma dimensão relacionada ao patrimônio industrial. A revitalização do espaço preservou elementos históricos do local, estabelecendo uma relação entre a antiga função industrial do complexo e sua nova utilização. Essa conexão entre patrimônio, história e identidade é especialmente significativa para marcas de luxo.
O patrimônio não é apenas um elemento arquitetônico. Ele pode integrar o storytelling da marca, contribuir para a construção de sua identidade e reforçar a percepção de autenticidade associada ao produto.
Quando esses elementos são utilizados comercialmente, entretanto, também é necessário considerar direitos relacionados à imagem, propriedade, obras e conteúdos produzidos a partir desses espaços. Mais uma vez, o Fashion Law aparece justamente na interseção entre patrimônio, criatividade, negócios e exploração comercial.
O que esse caso ensina para marcas menores?
Embora a Loro Piana opere em uma escala completamente diferente da realidade da maioria das empresas de moda, os princípios envolvidos podem ser aplicados a negócios de diferentes tamanhos. Uma pequena marca também possui informações estratégicas, fornecedores, processos, desenhos, fichas técnicas, contatos comerciais e conhecimentos que podem representar vantagem competitiva.
Também precisa definir quem é proprietário das criações desenvolvidas por seus colaboradores e parceiros. Também precisa estabelecer regras para utilização de informações confidenciais. Também pode precisar proteger sua identidade, seus designs e seus processos. A diferença está na escala, e não na necessidade de organização jurídica.
Fashion Law está nos bastidores da peça
A inauguração do centro de excelência da Loro Piana demonstra que o valor de um produto de moda não está apenas naquilo que o consumidor vê. Por trás de uma peça de malharia existem matérias-primas, profissionais, técnicas, processos, fornecedores, tecnologia, conhecimento e anos de desenvolvimento. Tudo isso pode gerar relações jurídicas que precisam ser estruturadas e protegidas.
É por isso que o Fashion Law não deve ser compreendido apenas como o direito aplicado às marcas ou aos produtos que chegam às vitrines. Ele também acompanha os bastidores da criação, da produção e da construção do valor na indústria da moda.
No caso da Loro Piana, a verticalização da cadeia produtiva e o investimento na preservação do savoir-faire demonstram como conhecimento, patrimônio, pessoas e processos podem ser elementos centrais da estratégia de uma Maison. E, quanto maior o valor desses ativos, maior a importância de compreender como protegê-los juridicamente.
Se você ou a sua marca está enfrentando situações relacionadas à propriedade intelectual, contratos, cópia de produtos, concorrência desleal ou demais questões envolvendo a indústria da moda, o escritório Carolina Lago Advocacia, referência em Fashion Law, pode auxiliar com orientação e proteção jurídica estratégica através do link: https://linktr.ee/carolinalagoadvocacia
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