Guess inaugura nova era jurídica ao vender controle majoritário de seus direitos de marca
- Carolina Lago

- há 12 horas
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O grupo Authentic Brands Group finalizou a aquisição de 51% dos direitos de propriedade intelectual da Guess, marcando um movimento estratégico que redefine a estrutura jurídica e empresarial da marca. Com a operação, a Guess deixa oficialmente a bolsa de Nova Iorque e passa a operar sob um modelo cada vez mais comum no mercado global de moda: a separação entre propriedade da marca e gestão operacional.

Enquanto a Authentic assume o controle majoritário da propriedade intelectual, a família Marciano e os acionistas históricos mantêm 100% da empresa operacional, responsável pela gestão cotidiana das marcas Guess e Marciano. Esse arranjo evidencia uma tendência clara do setor: marcas icônicas deixam de ser apenas empresas de produto para se tornarem ativos estratégicos de propriedade intelectual, explorados via licenciamento, expansão geográfica e novas categorias.
Sob a ótica do Direito da Moda, a operação levanta questões centrais sobre titularidade de marca, contratos de licenciamento, governança, uso de imagem e preservação do DNA criativo. Em um mercado cada vez mais orientado por ativos intangíveis, decisões como essa mostram que controlar a marca pode ser mais relevante do que controlar a operação.
A aquisição de 51% da propriedade intelectual da Guess pelo Authentic Brands Group representa um dos movimentos mais emblemáticos do fashion business contemporâneo. Mais do que uma transação financeira, trata-se de uma reorganização jurídica profunda que altera a lógica tradicional de controle das marcas de moda. Ao separar a titularidade da marca da operação comercial, a Guess passa a integrar um modelo que prioriza a exploração estratégica do ativo intangível mais valioso do setor: a marca.

Do ponto de vista jurídico, esse tipo de estrutura exige contratos extremamente sofisticados. A convivência entre um controlador da propriedade intelectual e uma empresa operacional independente demanda regras claras sobre licenciamento, padrões de qualidade, diretrizes criativas, uso de imagem, storytelling e expansão territorial. A marca deixa de ser apenas um nome e passa a ser um sistema jurídico vivo, protegido e monetizado por meio de acordos contratuais contínuos.
A saída da Guess da bolsa de valores também merece atenção. Ao deixar o ambiente regulado do mercado de capitais, a empresa ganha maior flexibilidade estratégica, reduz obrigações de transparência pública e amplia sua liberdade para decisões de longo prazo. Sob a ótica do Direito Empresarial da Moda, esse movimento reflete uma busca por eficiência, agilidade e proteção contra pressões externas típicas do mercado financeiro.

A Authentic Brands Group, por sua vez, consolida sua estratégia de adquirir marcas icônicas para atuar como gestora global de propriedade intelectual. Seu modelo é baseado na expansão via licenciamento geográfico e de categorias, reforçando experiências, presença cultural e alcance internacional. Isso transforma a marca em um ecossistema jurídico-comercial, no qual diferentes operadores exploram o ativo sob regras contratuais rígidas.
A manutenção do hub criativo na Suíça, da liderança operacional de Carlos Alberini e do papel criativo de Paul Marciano revela uma preocupação jurídica central: preservar o DNA da marca. Em contratos dessa natureza, a descaracterização da identidade pode gerar riscos reputacionais, quebra de valor e até disputas contratuais futuras. O Direito da Moda atua justamente para equilibrar crescimento econômico e integridade criativa.
Por fim, a escolha de Chiara Ferragni como nova embaixadora da Guess adiciona outra camada jurídica relevante. O uso de imagem de influenciadores globais envolve contratos complexos de licenciamento, cláusulas de moralidade, gestão de crise e alinhamento de valores. Em um cenário de exposição intensa e polarização, decisões estratégicas como essa reforçam a importância da assessoria jurídica especializada no setor.
O caso Guess ilustra com clareza como moda, direito e estratégia caminham juntos. Em um mercado onde o valor está cada vez mais nos intangíveis, compreender estruturas de propriedade intelectual deixou de ser opcional e se tornou essencial para a sobrevivência e expansão das marcas.
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