Zara usa IA para gerar imagens de moda com modelos reais e redefine os limites jurídicos da criação visual na indústria fashion
- JURÍDICO FASHION

- 3 de jan.
- 2 min de leitura
A Zara anunciou a adoção de inteligência artificial (IA) como parte de sua estratégia para acelerar a produção de imagens de moda, utilizando modelos reais já fotografados como base para a criação de novas variações visuais. A iniciativa, liderada pelo grupo Inditex, insere a marca em um movimento crescente da indústria global, que busca eficiência, rapidez e escalabilidade em um mercado cada vez mais digitalizado.

Diferentemente da criação de modelos totalmente virtuais, a Zara utiliza imagens reais previamente produzidas, que passam por processos de edição e reconfiguração com auxílio de IA. O objetivo é gerar novos enquadramentos, combinações de looks e estilos visuais sem a necessidade de refazer sessões fotográficas completas. Segundo a empresa, os modelos envolvidos concedem autorização expressa para esse uso e recebem remuneração equivalente à de uma nova produção, o que demonstra uma tentativa de alinhar inovação tecnológica a práticas éticas.
Do ponto de vista do Direito da Moda, o movimento da Zara é especialmente relevante porque expõe a fragilidade dos contratos tradicionais diante das novas tecnologias. Cláusulas de direito de imagem, originalmente pensadas para usos específicos e delimitados, passam a enfrentar um cenário em que uma única fotografia pode ser transformada, replicada e explorada em múltiplos contextos por meio da inteligência artificial. Isso exige uma revisão profunda das redações contratuais, com previsões claras sobre uso de IA, extensão temporal, territorialidade, formas de modificação da imagem e impactos na remuneração.
A discussão também alcança o campo da autoria e dos direitos conexos. Quando uma imagem é alterada ou recriada por inteligência artificial, surgem questionamentos sobre quem detém os direitos sobre o resultado final: o fotógrafo original, a equipe criativa, a marca ou o sistema tecnológico utilizado. Embora a IA seja apresentada como ferramenta de apoio, ela interfere diretamente no processo criativo, tornando indispensável a definição jurídica de responsabilidades e titularidades.
Além disso, o uso crescente de IA na produção visual impacta todo o ecossistema criativo da moda. Fotógrafos, stylists, diretores de arte e profissionais em início de carreira veem surgir um novo modelo produtivo, no qual a demanda por equipes completas pode ser reduzida. Esse cenário reforça a importância de debates jurídicos sobre proteção do trabalho criativo, concorrência leal e sustentabilidade das relações profissionais no setor.
O caso da Zara também chama atenção por contrastar com o discurso institucional da Inditex, especialmente com a valorização histórica da fotografia de moda promovida pela Fundação MOP, ligada à presidente do grupo. Enquanto exposições celebram nomes icônicos da fotografia, a empresa avança na automação visual como resposta às dinâmicas de mercado, evidenciando uma tensão entre tradição criativa e inovação tecnológica.
Mais do que uma tendência pontual, o uso de inteligência artificial na moda representa uma transformação estrutural. Para o Direito da Moda, o desafio não está em barrar a tecnologia, mas em construir marcos jurídicos que garantam transparência, equilíbrio contratual e proteção de direitos em um ambiente cada vez mais híbrido entre o humano e o digital. O movimento da Zara antecipa debates que devem se intensificar nos próximos anos e reforça a necessidade de profissionais da moda compreenderem, desde já, os impactos legais da inovação.
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